domingo, 10 de fevereiro de 2013

Lição de moral #15: Nunca monte sua nave espacial com papel de livros.

Às vezes bate aquela vontade de ir para longe. Longe mesmo, tipo a anos luz de distância. Não para ficar longe da civilização, mas para atingir a proximidade pela simples contradição. Nessas horas, algumas pessoas munem-se de cálculos avançadíssimos, uma fotografia velha das filhas pequenas e uma série de geringonças protetoras, na esperança de ficar mais próximo de casa e eliminar o paradoxo fundamental de toda viagem: quanto mais longe, mais perto. Outras pessoas munem-se apenas de livros, com suas manifestações de verdade e fantasia. Essas últimas são mais pretensiosas, pois pegar um foguete para além da estratosfera faz-nos muito mais humildes do que ler a Crítica da Razão Pura. O combustível mais perigoso para essas viagens não é hidrogênio em pó, nem chá verde, ou balas de coca-cola, mas sim as palavras dos livros, que, não obstante sua evidente fragilidade, permanecem indestrutíveis, nas explosões e queimaduras que causaram no interior das pessoas, na sua parte invisível e mais evidente. Se tudo correr assim, apenas somos esmagados pela torrente de perfeição, que vai para outras galáxias, enquanto ficamos compactados, observando com lunetas cinematográficas o seu voo ultra-distante. Não deixe sua alma servir de combustível para ideias velhas sem também usá-las como combustível para sua alma inexistente vagar pelos absurdos mais incoerentes da existência. Assim você mergulha fundo no segundo paradoxo das viagens: quanto mais nos deixamos levar pela diferença, mais iguais a nós mesmos tornamo-nos — afinal, ou bem somos bastante desconhecidos, fundamentalmente, ou já nos tornamos zumbis: cadáveres ambulantes que venceram na vida e não têm mais nada a fazer além de vagar mecanicamente em busca de miolos. Não impeça Odisseu de retornar ao lar e Deixe o Major Tom vivo em sua memória, argonauta do mundo supra-lunar, em sua eterna jornada que jamais deixará de acontecer. Você só precisa de 10 toneladas de aço ou madeira, 15000 páginas de discursos variados, 2 quilogramas de de nióbio, 100 miligramas de silício e 10 de magnésio.

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