Eu não lembro muito bem como dormi naquele sábado. Ao acordar, a brisa calma se aproximava das onze, e o fogo não queimava mais. Houve coragem, ouvi você chorar. Se fosse possível ver as lágrimas, tocar os ombros, assoviar dúvidas e sorrir da remela alheia; Se eu tivesse que ver suas pernas tremerem (mas eu olhava pras minhas sem encarar o telefone), você tivesse me batido, e os pratos se chocassem contra as samambaias suspensas infirmes; Se eu tivesse dormido até às três, se a gente não tivesse discutido de saudades na quarta... Veja só, como a imaginação transforma as samambaias. Suspenso no tempo indeterminado. Germinando desculpas e soluços numa caixa de mensagens desastrosas. Os amigos transitam pelas fronteiras inocentes. Os muros autoinflados do ego tornam minotauros em labiritos. Suspirando pestanejos, sacrilejando paralíticos. Quem olhar além do reflexo atirará no primeiro relógico. Respondendo espirros e ignorando elefantes, avançamos à distância aquilo que nos distância do avante; aquilo que permanece; naquele a kilo, a moça perguntou de você. 3 metros cúbicos de espuma pós-moderna, 10 de magnésio.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Lição de moral #16: Cuide bem dos dentes do leão.
Ao receber sua primeira carta de imposto de renda, dance ao redor de um chafariz por ter se tornado um adulto. Agora, o peso tarefático das experiências históricas terão um leve cheiro de nitroglicerina, e você vai odiar pessoas que usam calças com boca de sino. Au mais, que o sinar, sonhe sangue e purpurina. Não esqueça de deixar a tv ligada sempre que possível, sua monotonia circuncinfática estabiliza corações até mesmo enquanto dorme. Se algo começar a cheirar como carcaça, saiba que ali exprimem os leões. Ali estremem os vagões. Dali se mo-vê por moldura. 30 luzes por segundo, 10 de magnésio.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Lição de moral #15: Nunca monte sua nave espacial com papel de livros.
Às vezes bate aquela vontade de ir para longe. Longe mesmo, tipo a anos luz de distância. Não para ficar longe da civilização, mas para atingir a proximidade pela simples contradição. Nessas horas, algumas pessoas munem-se de cálculos avançadíssimos, uma fotografia velha das filhas pequenas e uma série de geringonças protetoras, na esperança de ficar mais próximo de casa e eliminar o paradoxo fundamental de toda viagem: quanto mais longe, mais perto. Outras pessoas munem-se apenas de livros, com suas manifestações de verdade e fantasia. Essas últimas são mais pretensiosas, pois pegar um foguete para além da estratosfera faz-nos muito mais humildes do que ler a Crítica da Razão Pura. O combustível mais perigoso para essas viagens não é hidrogênio em pó, nem chá verde, ou balas de coca-cola, mas sim as palavras dos livros, que, não obstante sua evidente fragilidade, permanecem indestrutíveis, nas explosões e queimaduras que causaram no interior das pessoas, na sua parte invisível e mais evidente. Se tudo correr assim, apenas somos esmagados pela torrente de perfeição, que vai para outras galáxias, enquanto ficamos compactados, observando com lunetas cinematográficas o seu voo ultra-distante. Não deixe sua alma servir de combustível para ideias velhas sem também usá-las como combustível para sua alma inexistente vagar pelos absurdos mais incoerentes da existência. Assim você mergulha fundo no segundo paradoxo das viagens: quanto mais nos deixamos levar pela diferença, mais iguais a nós mesmos tornamo-nos — afinal, ou bem somos bastante desconhecidos, fundamentalmente, ou já nos tornamos zumbis: cadáveres ambulantes que venceram na vida e não têm mais nada a fazer além de vagar mecanicamente em busca de miolos. Não impeça Odisseu de retornar ao lar e Deixe o Major Tom vivo em sua memória, argonauta do mundo supra-lunar, em sua eterna jornada que jamais deixará de acontecer. Você só precisa de 10 toneladas de aço ou madeira, 15000 páginas de discursos variados, 2 quilogramas de de nióbio, 100 miligramas de silício e 10 de magnésio.
